É comum ouvir ou mesmo dizer, ao se referir a uma criança atípica — que é o termo correto para designar aquelas com alguma situação clínica não comum à maioria –, a expressão “especial”. No entanto, mesmo antes de a nomenclatura de filho “especial” ser criada ou de vivenciar essa realidade pessoalmente — experiência que me amadureceu ainda mais –, já manifestava críticas a respeito do termo.
Embora sua origem visasse expressar algo excepcional ou extraordinário, a mim sempre pareceu uma forma de discriminação, similar, em minha percepção, ao uso da expressão “melhor idade” — tema que, contudo, caberia a outro artigo. Creio firmemente que, independentemente do desafio que nos seja atribuído, não fomos “condenados” ao receber o diagnóstico médico de nossos filhos, como alguns pensam.
Pelo contrário, fomos escolhidos, pois filhos jamais devem ser encarados como um problema. É certo que alguns apresentarão desafios específicos, que podem ser compreendidos e trabalhados com amor e dedicação. A ingenuidade e pureza das crianças são as que nos fornecem a força e a alegria necessárias para transformar o ambiente ao nosso redor.
Elas podem e merecem estar em todos os lugares, uma vez que não há limites para uma criança que é incentivada, respeitada e amada. Lembremo-nos: ter filhos não se alinha à lógica da dívida ou da cobrança; é, sim, uma dádiva, um ato de doação por outra pessoa, um anular do ego pessoal.
A premissa de que todos os filhos são especiais convida pais, familiares e a sociedade em geral a celebrar a diversidade e a individualidade de cada criança. Implica também reconhecer seu potencial único e oferecer o apoio necessário para que se desenvolvam plenamente. O objetivo primordial é ressaltar a importância de reconhecer a singularidade de cada criança, independentemente de suas particularidades ou desafios. Cada filho possui, assim, um valor único e insubstituível, merecendo plenamente amor, cuidado e atenção.
Toda criança, especialmente as que apresentam particularidades (termo que prefiro utilizar), merece amor, respeito e palavras acolhedoras. Todos os filhos são especiais e únicos, cada um com suas próprias características, necessidades e potenciais. É o amor de pai e mãe, em sua essência, que se torna capaz de perceber e valorizar essa individualidade em cada um deles.
Dessa forma, a verdadeira inclusão se manifesta não quando se precisa pedir permissão para participar, nem quando se é denominado de forma depreciativa, como “especial”. Ela ocorre quando todas as crianças têm sua identidade preservada e seu espaço para brilhar, sendo quem realmente são, o que, por sua vez, contribui para tornar o mundo um lugar melhor.
Afinal, não há nada de errado em ser diferente. Essa é uma característica natural da diversidade humana que, ao tornar o mundo mais rico, nos ensina novas formas de amar e compreender.
Marcelo Di Rezende, advogado criminalista, mestre em Direito professor universitário e pai atípico
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